Ano novo, o mesmo mundo: quando mudar o olhar é mais urgente do que mudar o calendário

Por Fredi Jon

Todo fim de ano repete um ritual conhecido: promessas, listas, votos de renovação. O calendário muda, os fogos iluminam o céu e, por algumas horas, parece que a vida ganhará um novo enredo. Mas passado o espetáculo, o que permanece é quase sempre o mesmo cenário — os mesmos conflitos, as mesmas desigualdades, os mesmos dilemas pessoais e coletivos.

Talvez o erro esteja na expectativa. Não é o tempo que nos trai; somos nós que insistimos em olhar os velhos problemas com lentes gastas. A ideia de “ano novo, vida nova” soa confortável, mas frequentemente serve como álibi para não revisarmos nossas próprias narrativas. Muda-se a data, preservam-se os hábitos, reforçam-se as certezas.

Especialistas em comportamento humano apontam que a repetição de padrões está menos ligada à falta de oportunidades e mais à rigidez do olhar. Quando o indivíduo se fecha em uma redoma de convicções, perde a capacidade de enxergar saídas fora do roteiro conhecido. O mesmo vale para sociedades inteiras: crises políticas, sociais e econômicas tendem a se agravar quando são analisadas apenas por um ângulo — geralmente o mais conveniente para quem já detém poder.

Ampliar o olhar exige desconforto. Significa escutar o contraditório, aceitar que o outro talvez veja melhor uma parte do problema que nos escapa. Significa também admitir erros, rever posições e abandonar a ilusão de que crescer é apenas acumular respostas. Na prática, amadurecer é aprender a fazer perguntas mais honestas.

O novo ano, portanto, não pede euforia automática, mas lucidez. Não exige soluções mágicas, e sim um deslocamento interno: menos discursos prontos, mais disposição para enxergar o que sempre esteve ali, mas foi ignorado. O problema pode continuar o mesmo. A diferença real surge quando o olhar deixa de ser estreito e passa a ser profundo.

Se há algo verdadeiramente novo a desejar neste início de ciclo, é a coragem de ver além da própria redoma. Porque, no fim, não é o mundo que muda primeiro — é a forma como escolhemos enxergá-lo.

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