Casadas, mães, empresárias, produtoras e idealizadoras da websérie “Não Costumo Me Apaixonar por Telefone”, as duas representam uma nova etapa da visibilidade lésbica no Brasil: a possibilidade de ocupar espaços, criar narrativas e construir o próprio futuro.
Antes de existir uma produção audiovisual assinada por duas mulheres LGBT+, houve a luta pelo direito de simplesmente ser e estar. Na São Paulo dos anos 1980, o Ferro’s Bar, na região central, era um importante ponto de encontro, socialização e organização política de mulheres lésbicas. Em 19 de agosto de 1983, o local foi palco do episódio que ficou conhecido como Levante do Ferro’s Bar, quando militantes reivindicaram o direito de permanecer no espaço e de vender o boletim ChanaComChana, publicação produzida por lésbicas.
O episódio marcou a história do movimento lésbico brasileiro porque transformou uma situação de discriminação em mobilização pública. O bar deixou de ser apenas um endereço de convivência e passou a simbolizar a disputa pelo direito à cidade, à comunicação, à cultura e à existência. Naquele contexto, reunir-se, circular informação e criar vínculos eram atitudes que enfrentavam a invisibilidade e os limites impostos às mulheres lésbicas.
Quatro décadas depois, a ocupação desses espaços acontece também por meio da arte. Eve Cosendey e Andréa Lucena são casadas, mães, proprietárias da TDQ, artistas e idealizadoras da websérie Não Costumo Me Apaixonar por Telefone, série estrelada por Luciana Vendramini e Giselle Tigre que anos atrás protagonizaram o 1º beijo gay da televisão brasileira.
A trajetória das duas estabelece um elo entre a memória de resistência do Ferro’s Bar e as formas contemporâneas de representação: elas não apenas buscam espaço para existir, mas criam, produzem e colocam em circulação as próprias histórias.
“Quando olhamos para a história do Ferro’s Bar, entendemos que mulheres LGBT+, apesar de décadas depois, ainda precisaram lutar pelo respeito de estarem juntas e de serem ouvidas. Hoje, nós podemos mostrar essa luta também através da arte.” afirma Andréa Lucena, produtora executiva da TDQ.
A comparação entre os dois momentos não apaga as diferenças. Ao contrário, revela uma continuidade. Se as mulheres que estiveram no Ferro’s Bar precisaram se organizar para defender o direito de ocupar um local e fazer uma publicação circular, Eve e Andréa atuam em um cenário no qual também é possível disputar o imaginário social por meio do audiovisual. O set de filmagem torna-se, nesse sentido, uma extensão dos espaços de resistência: um lugar para afirmar que mulheres lésbicas e bissexuais podem falar de amor, família, trabalho, maternidade, desejo e cotidiano a partir do próprio ponto de vista.
A websérie Não Costumo Me Apaixonar por Telefone nasce desse movimento de criação de novas referências. Ao idealizarem e produzirem a obra, Eve e Andréa ampliam a presença sáfica na cultura e ajudam a deslocar essa representação de narrativas. A existência lésbica aparece, assim, em sua complexidade: afetiva, profissional, familiar, criativa e social.
Essa mudança não significa que a luta tenha terminado. A lesbofobia, a violência e a desigualdade ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres. A diferença é que, hoje, há mais ferramentas para transformar experiência em linguagem, memória em obra e presença em referência. A visibilidade também se constrói quando um casal de mulheres pode ser reconhecido como casal, família, empresa e força criativa sem precisar caber em uma única definição.
“Ser um casal de mulheres, mães, empresárias e produtoras também é uma forma de ocupar espaços que, durante muito tempo, não foram realidade para nós. A nossa história fala de amor, mas fala também de trabalho, autoria e pertencimento.” conclui Eve Cosendey, cineasta e sócia da TDQ.
Do balcão do Ferro’s Bar ao set de filmagem, a história lésbica segue abrindo caminhos. O passado ofereceu o alicerce; o presente amplia o palco. Eve Cosendey e Andréa Lucena fazem parte dessa continuidade ao mostrar que produzir audiovisual voltado para o protagonismo feminino e LGBTQIAPN+ também é ocupar um espaço político e afetivo: o espaço de contar a própria história e permitir que outras mulheres se reconheçam nela.
